O pedágio oculto da bronquiectasia: além da tosse

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A bronquiectasia, uma doença pulmonar crônica, não envolve apenas muco e tosse persistentes. Ela desencadeia uma cascata de complicações que se estendem muito além do sistema respiratório, afetando o coração, os ossos, a saúde mental e até mesmo a função cognitiva. Compreender estes efeitos sistémicos é crucial para uma gestão proativa e manutenção da qualidade de vida.

Tensão cardiovascular: um coração enfraquecido

A bronquiectasia danifica as vias aéreas, reduzindo os níveis de oxigênio no sangue. Os pulmões respondem contraindo os vasos sanguíneos, levando à hipertensão pulmonar (pressão alta nos pulmões) em 33-40% dos pacientes. Isto força o coração a trabalhar mais, aumentando eventualmente o risco de insuficiência cardíaca direita e até acidente vascular cerebral. O controlo eficaz da bronquiectasia – através da desobstrução das vias respiratórias e da medicação – é vital para proteger a saúde cardiovascular.

Fraqueza muscular e óssea: a compensação do corpo

Os pulmões exigem energia e nutrientes significativos. Em casos avançados, a bronquiectasia pode levar à sarcopenia (perda de massa muscular), pois o corpo prioriza a função pulmonar em detrimento da manutenção muscular. A redução da atividade física acelera ainda mais esse declínio. Da mesma forma, o uso prolongado de esteróides (muitas vezes prescritos de forma inadequada, já que um estudo descobriu que quase um terço dos pacientes os recebiam desnecessariamente) aumenta o risco de osteoporose e fraturas.

Saúde Mental: Ansiedade, Depressão e Isolamento

Viver com bronquiectasia é mentalmente desgastante. Mais de 65% dos pacientes sofrem de depressão e quase 55% sofrem de ansiedade. A ameaça constante de falta de ar e fadiga crónica pode levar ao isolamento social, agravando estas condições. Ignorar as consequências para a saúde mental piora a gravidade da doença e diminui a qualidade de vida.

Perda de peso não intencional e confusão mental

A inflamação crônica associada à bronquiectasia suprime o apetite, levando à perda de peso involuntária. Isto enfraquece ainda mais o corpo, criando um ciclo vicioso. Muitos pacientes também relatam “névoa cerebral” persistente – dificuldade de concentração, lapsos de memória e lentidão mental. Inflamação crônica, baixos níveis de oxigênio e depressão contribuem para o declínio cognitivo. Estudos mostram que a bronquiectasia aumenta o risco de demência, incluindo a doença de Alzheimer, em até 60%.

A realidade é esta : a bronquiectasia não é apenas uma doença pulmonar. É uma condição sistêmica com consequências de longo alcance. A gestão proativa, incluindo exames cardiovasculares e ósseos, apoio à saúde mental e orientação nutricional, é essencial para mitigar estes riscos e melhorar os resultados a longo prazo.


Fontes:
JianX et al. A resistência vascular pulmonar prediz a mortalidade em pacientes com hipertensão pulmonar associada a bronquiectasia. Jornal de Hipertensão. Outubro de 2024.
* Gramegna A et al. O impacto dos eventos cardiovasculares nas bronquiectasias: uma revisão sistemática e meta-análise. Pesquisa Aberta do ERJ. 30 de setembro de 2024.
* PollockJ et al. Uso de corticosteróides inalados em bronquiectasias: dados do Registro Europeu de Bronquiectasias (EMBARC). Tórax. 20 de maio de 2025.
* Oweidat KA et al. A prevalência de ansiedade e depressão em pacientes com bronquiectasia e sua associação com a gravidade da doença: um estudo transversal. Relatórios Científicos. 28 de novembro de 2023.
Kim SH et al. Associação entre bronquiectasia não fibrose cística e o risco de demência incidente: um estudo de coorte nacional. Doença Respiratória Crônica. 15 de dezembro de 2023.